
Quando o telemóvel tocou, atendi com o sorriso de sempre, que se foi transformando em tristeza e desespero. Só pode ser uma brincadeira de mau gosto, pensei.
Para mim, no meu pequeno mundo, as pessoas importantes não sofrem, não se magoam, não ficam tristes e muito menos, ficam doentes.
Porque raio, quando começo a escalar as paredes escuras e húmidas do poço em que estava enfiada à tanto tempo, quando começo a espreitar, ainda que a medo, o mundo que me rodeia, tem que vir mais um problema para me afundar?
O meu super-herói, aquele que me trouxe às cavalitas, que me ensinou a andar, que me limpou as lágrimas quando cai pela primeira vez de bicicleta, que me ensinou a gostar do Benfica, que me ensinou a gostar de (boa) música, que me incentivou a querer ser uma grande enfermeira... Neste momento, o meu super-herói está frágil e cansado, deitado numa cama, que não é a dele. A casa está silenciosa demais, fria demais, vazia demais, mas por pouco tempo, porque eu ainda tenho muitas coisas para aprender, para partilhar e para ensinar!
Pelo som da tua voz, pelo cheiro a tabaco a impregnar-se na casa, pelas brincadeiras parvas, pelas conversas sem nexo... Por tudo isso, e por tantas mais coisas, trocava o meu coração novo e saudável, pelo teu velho e cansado!