Definitivamente existem coisas difíceis de perceber. Esta é uma delas. Parece que a palavra amor anda a ser demasiado utilizada. Amo algodão doce. Amo aquela musica dos Nirvana. Amo cor-de-rosa. Amo a minha melhor amiga, amo o meu amigo e amo o amigo do meu amigo. Onde anda o amor puro, o amor cego, o amor desprovido de interesse, o amor doente, o amor verdadeiro? Já não existe paixão pura, saudade avassaladora, dor, tristeza, felicidade desmedida e sorrisos rasgados?
Parece-me que o amor já não é amor e que já ninguém está disponível para se apaixonar perdidamente. Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por conveniência, porque é prático, porque é giro ou simplesmente porque não gostam de estar sozinhas. E quando se apaixonam, não se entregam de corpo e alma com medo do desconhecido, de sofrer ou de se magoar. Criam uma carapaça fictícia de onde não pretendem sair, a sua zona de conforto. Mas o que não percebem é que verdadeiro amor, o amor puro, é que traz esse conforto tão desejado.
O coração fica quente com poucas palavras e arrefece ainda mais facilmente. À primeira adversidade desistem. Não lutam, conformam-se. Não casam, assinam contratos. E assim que vem a primeira tempestade, saltam fora do barco.
Da mesma forma, fácil, com que desistem também se apaixonam. Um sorriso bonito. Um olhar voluptuoso. Um decote atrevido. Meia dúzia de palavras trocadas. Dois ou três encontros e lá vem a confissão, “acho que estou apaixonado. Amo-te”. Repetem-se. Usam essas cinco letras mágicas até à exaustão. Desgastam a palavra, tiram-lhe significado. Ou pelo contrário, dão demasiada importância a coisas que, na verdade, não o têm.
De que serve ouvir alguém dizer que nos ama, quando na realidade não conseguimos sentir esse amor? Se olhamos à nossa volta e ele não está presente nos atos, nem nos olhos de quem o diz.
Mas o maior problema não é o facto das pessoas não se mostrarem disponíveis para o amor cego, o problema é julgarem que esse amor cego é aquele amor morno que sentem. O amor verdadeiro não é um princípio, não é um meio, não é um fim e não é um destino. O amor cego é uma condição. O amor não pode ser percebido, é um estado de quem o sente. Amor é amor. É essa a beleza, é esse o perigo.
A vida é uma coisa, o amor é outra. O amor é mais bonito que a vida. A vida às vezes pode matar o amor. O amor é a nossa alma. A nossa alma a desatar a correr atras do que não sabe, do que não compreende. O amor é uma verdade.
A derradeira verdade é que o amor não é para perceber. Aliás, o sinonimo de amor verdadeiro é não se perceber, querer e não ter esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho mas acompanhado. Não conseguir resistir, não ceder. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Mas um simples momento de amor pode durar uma vida inteira.








